O potencial econômico e o caminho árduo para a regulação do Cânhamo Industrial no Brasil

“Cânhamo Industrial: Potencial Econômico e Necessidade de Regulamentação no Brasil”

Jair Calixto - Diretor Farmacêutico do ICTCB

3/2/202635 min read

Figura 1 – Diversas possibilidades de uso do cânhamo.

Nota: a figura acima é apenas ilustrativa e não demonstra todo o potencial de uso do cânhamo. Além disso, não discutiremos aqui o papel do seu uso em medicamentos e cosméticos.

“Cânhamo Industrial: Potencial Econômico e Necessidade de Regulamentação no Brasil”

por Jair Calixto*

1) Introdução

O termo “cânhamo industrial” tem sido, nos últimos dois anos, abordado por diversos especialistas e pela imprensa em geral, como mais uma forma de aproveitamento deste vegetal para múltiplos propósitos, dentro de diferentes setores industriais, como a indústria de construção civil, decoração, indústria moveleira, indústria têxtil, indústria do papel e até materiais compostos para substituição ao plástico.

O cânhamo, uma variedade da Cannabis sativa L., tem ganhado destaque por suas diversas aplicações e benefícios, principalmente com a legalização do seu cultivo em vários países, mas não por aqui, cuja liberação beneficiou apenas o setor da pesquisa acadêmica e da indústria farmacêutica, cujas aplicações estão restritas ao uso medicinal.

2) Afinal, o que é o Cânhamo?

O cânhamo industrial pode ser considerado como a Cannabis sativa e a Cannabis indica subsp. Chinensis*, que possuem baixíssimos índices de THC, o que não os enquadra como drogas psicoativas [3]. Contudo, essa característica pode ser contornada com regulamentação específica, controles efetivos do plantio e regularização das empresas, potenciais cultivadoras, nos órgãos reguladores competentes.

Conforme já mencionado em outras publicações, o cânhamo não possui interesse para uso recreativo e, sua espécie vegetal de interesse industrial, se diferencia da Cannabis para uso medicinal devido ao seu tamanho e constituição, cujos cultivares de fibra são cultivadas em alta densidade, não são ramificadas e são muito altas.

E qual a utilidade do Cânhamo Industrial?

É uma planta extremamente versátil que se destaca em diversos setores da economia e áreas relacionadas com recurso naturais e despoluição do meio ambiente. Kraenzel [6] classifica a aplicação de seus mais de 25.000 produtos em nove setores: agricultura, automotivo, construção civil, cosméticos, alimentação/nutrição/bebidas, mobília, papel e celulose, reciclagem e têxtil.

Indústrias diversas: As fibras de cânhamo são usadas em tecidos e têxteis, fios, papel, carpetes, cordas, móveis domésticos, materiais de construção e isolamento, autopeças e compósitos e biocombustíveis, bioplásticos.

Construção: Material de construção sustentável, como concreto de cânhamo, madeira e tijolos.

Alimentação: Óleo de cânhamo rico em CBD e ômega-3, sementes com alto valor nutritivo; nutrição animal; proteína em pó; farinha de cânhamo. Óleo de cânhamo pode ser utilizado em cosméticos e produtos para cuidados com a pele.

As sementes de cânhamo são ricas em proteínas, fibras, ácidos graxos saudáveis e vitaminas.

Veterinária: Aditivos alimentares e Saúde Animal.

Energia: como combustível (biodiesel).

*https://www.ictcannabisbrasil.com/diferenciacao-entre-canhamo-e-cannabis-medicinal-concentracoes-de-thc-e-cbd

Figura 2 – Blocos de concreto de cânhamo. Fonte: arquivo próprio do autor.

3) Aspectos da Produção Mundial

Produção Global

Uma estimativa conservadora da produção global total de cânhamo (biomassa relatada / fibra (blast) + hurds) se situa ao redor de 275.000 a 320.000 t/ano. Podemos tomar 300.000 t/ano como valor de referência.

Observação: diferentes fontes usam coberturas nacionais distintas (FAO/estatísticas nacionais), daí a faixa; a UNCTAD -Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento - e estudos acadêmicos indicam um intervalo nessa ordem de grandeza para anos recentes. [17]

Composição da planta

Fontes técnicas concordam em que, por peso do caule seco:

  • Bast (fibras longas que cobrem os hurds) = entre 20 e 30% do peso do talo seco.

  • Hurds / shives (miolo lenhoso) = entre 60 e 80% do talo seco.

  • Sementes são colhidas separadamente e não estão totalmente representadas na estatística “fibra” em alguns bancos de dados. [18]

Estimativa — divisão em bast fiber e hurds (toneladas)

Tomando 300.000 t/ano como referência central:

  • Bast (20–30%) → 60.000 t a 90.000 t / ano.

  • Hurds (60–80%) → 180.000 t a 240.000 t / ano. [19]

4) Como esses componentes são usados — estimativa por aplicação (toneladas / ano)

Projeção Técnica da Distribuição Industrial do Cânhamo

(Modelagem baseada em dados oficiais e literatura científica)

A inexistência de estatísticas globais consolidadas que segmentem a produção de cânhamo por aplicação industrial em termos volumétricos impõe a necessidade de abordagens inferenciais. Assim, a presente seção apresenta uma modelagem técnica explícita, construída a partir de dados oficialmente rastreáveis e proporções amplamente aceitas na literatura científica.

Metodologia da Modelagem

A projeção foi elaborada com base nos seguintes parâmetros documentados:

  • Produção global anual de fibra de cânhamo: aproximadamente 287.000 t/ano, segundo FAOSTAT [26].

  • Estrutura média do talo: Fibras bast: 25–35% da massa seca.

    • Fração lenhosa (hurds): 60–70% da massa seca
      conforme revisões técnicas [22].

    • Destinação industrial qualitativa: Construção como principal mercado dos hurds na Europa [24,27]; Têxteis, compósitos e papéis técnicos como principais destinos do bast [22,23,25]; Bioplásticos e aplicações químicas como segmentos emergentes [23, 25].

A partir desses parâmetros, foram estimadas faixas de consumo potencial, sem pretensão de representar valores estatísticos oficiais.

Resultados da Projeção por Segmento Industrial

A — Têxteis (fibras - bast)
Considerando uma disponibilidade global de fibras bast da ordem de 72.000 a 100.000 t/ano (25–35% da produção total) [22,26], e a relevância histórica e técnica do setor têxtil, estima-se que aproximadamente 30–45% dessa fração possa ser direcionada a aplicações têxteis industriais.
• Estimativa projetada: ≈ 22.000 – 45.000 t/ano (modelagem inferencial).

B — Papel e Papéis Técnicos
A literatura indica que o uso de cânhamo em papel concentra-se em nichos técnicos e especiais, representando uma fração reduzida da fibra disponível [23]. Considerando uma conversão limitada do bast e pequenas frações dos hurds processados para celulose técnica:
• Estimativa projetada: ≈ 6.000 – 10.000 t/ano.

C — Construção (Hempcrete e isolamento)
Os hurds representam aproximadamente 170.000 a 200.000 t/ano da biomassa global disponível [22,26]. Estudos indicam que a construção é atualmente o principal destino dessa fração na Europa, com crescimento contínuo [24,27].
Assumindo que 50–70% dos hurds sejam absorvidos por aplicações construtivas:
• Estimativa projetada: ≈ 85.000 – 140.000 t/ano.

D — Compósitos e aplicações automotivas
Aplicações em compósitos utilizam predominantemente fibras bast de melhor qualidade, com menor volume relativo, porém maior valor agregado [25]. Considerando uma fração moderada da disponibilidade global de bast:
• Estimativa projetada: ≈ 10.000 – 30.000 t/ano.

E — Pisos e revestimentos compósitos
Pisos e revestimentos representam um subconjunto das aplicações em compósitos, ainda em fase de expansão industrial [23, 25]. A destinação volumétrica é, portanto, restrita quando comparada a painéis estruturais ou automotivos.
• Estimativa projetada: ≈ 3.000 – 12.000 t/ano.

F — Papelão técnico e fibras celulósicas industriais
A utilização do cânhamo em papelão técnico e processos industriais celulósicos é mencionada como aplicação especializada [23]. Considerando o caráter técnico e não massificado:
• Estimativa projetada: ≈ 5.000 – 20.000 t/ano.

G — Bioplásticos e bio-compósitos
A literatura caracteriza o uso de fibras de cânhamo em bioplásticos como emergente, com volumes ainda reduzidos em comparação a aplicações tradicionais [23,25].
• Estimativa projetada: ≈ 1.000 – 6.000 t/ano.

H — Biocombustíveis (óleo de semente)
As sementes de cânhamo representam uma fração menor da biomassa total e são majoritariamente destinadas à alimentação e à indústria cosmética [20]. Embora exista potencial técnico para biodiesel, a disponibilidade atual de óleo para esse fim é limitada.
• Estimativa projetada: ordem de milhares a poucas dezenas de milhares de toneladas de sementes por ano, dependendo do país [20, 21].

I — Alimentos, óleo e proteínas (sementes)
A produção de sementes para alimentação humana e animal constitui o principal destino econômico dessa fração, com mercado global estimado em USD 1,0–1,1 bilhão em 2023 [20, 21]. Em termos físicos, os volumes concentram-se em países como França, Canadá e China.
• Estimativa qualitativa: dezenas de milhares de toneladas de sementes por ano, globalmente.

Notas: as estimativas apresentadas:

  • Não substituem dados estatísticos oficiais;

  • Servem como ferramenta analítica para compreensão da distribuição industrial;

  • Estão fundamentadas em dados rastreáveis e literatura revisada;

  • Evidenciam a predominância da construção, seguida por têxteis e compósitos, como principais destinos industriais do cânhamo.

Essa abordagem permite integrar números, rigor científico e transparência metodológica, fortalecendo a análise estratégica do setor.

Resumo da Produção Mundial

Observação metodológica. Os dados apresentados combinam estatísticas agrícolas oficiais (Comissão Europeia, USDA/NASS, Statistics Canada) e relatórios de mercado setoriais para valores econômicos. Quando indicado como “estimativa”, refere-se a projeções de mercado ou dados preliminares de colheita.

5) Mercado Brasileiro

Alguns autores relatam as primeiras experiências brasileiras com cânhamo industrial desde o século XIX (fios, tecidos e cordas), em Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro [9].

Hoje a produção comercial de cânhamo industrial no Brasil é muito limitada. Na prática a cadeia está essencialmente em fase experimental, com projetos de P&D e de projetos piloto. Fonte: https://www.embrapa.br/pdi-para-o-desenvolvimento-do-canhamo-no-brasil?

Várias instituições e associações estão produzindo estudos e roadmaps para viabilizar uma cadeia nacional (fibras, sementes/óleos, cosméticos, biomateriais como hempcrete). Entre os atores, destacam-se a Embrapa, o Instituto Escolhas, o Instituto Ficus e associações setoriais como a Associação Nacional do Cânhamo e a ABICANN. Fonte: https://abicann.org/?

Estudos recentes elaboram cenários de potencial (se a regulação for definida): por exemplo, um relatório técnico apontou 64.103 ha plantados como cenário de implantação nacional até 2030, com receitas líquidas estimadas de ≈ R$ 5,76 bilhões e geração de cerca de 14.485 empregos diretos (estimativas de estudos brasileiros sobre potencial econômico). Fonte: https://escolhas.org/wp-content/uploads/2025/06/RelatorioTecnico_Canhamo.pdf?

Barreiras principais: vácuo/regulação incompleta, conflito entre órgãos (ANVISA vs MAPA), falta de sementes padronizadas e infraestrutura industrial (desfibramento, espadelagem (scutching). Uma decisão do Judiciário em 2024 teve impacto jurídico importante, mas o setor aguarda normatização abrangente. Fonte: https://www.embrapa.br/pdi-para-o-desenvolvimento-do-canhamo-no-brasil?

Figura 3: Mapa da aptidão agrícola brasileira para cultivo do Cânhamo. Fonte: [15].

O território brasileiro tem potencial para o desenvolvimento da cadeia produtiva do cânhamo [15]. A mudança na legislação poderia impulsionar a economia agrícola e gerar valor agregado no setor não alimentar, especialmente para pequenos agricultores.

Dada a diversidade de aplicação das fibras na produção de bioplásticos, biocombustíveis, materiais como tecidos, madeira, papel, embalagens biodegradáveis, materiais de construção, o potencial de utilização no mercado brasileiro é amplo, principalmente na deficiência de moradias para pessoas de baixa renda.

Tabela 1 - Produção mundial de cânhamos e seus produtos. Fonte: citadas em 4A a 4I.

Tabela 2 - Principais países produtores de cânhamos e seus produtos

Produção e Mercado de Cânhamo — Principais Países (2022–2023)

Figura 4 e 5 – Plantação e colheita do Cânhamo. Ref.: próprio autor – gerada por IA.

Figura 6 – Construção de parede com hempcrete. Ref.: próprio autor – gerada por IA.

[ 1 ] Por que o Brasil ainda não tem uma produção relevante de cânhamo?

O Brasil não está fora do círculo produtivo por incapacidade técnica ou agronômica. Está fora por um vácuo normativo deliberado, associado a fatores históricos, institucionais e culturais.

Reputo como fator central uma certa confusão regulatória e política.

  • O cânhamo industrial (Cannabis sativa L. com baixo teor de THC) é tratado, na prática, como droga ilícita, apesar de não possuir efeito psicoativo, ser amplamente regulamentado em países desenvolvidos e existirem diversos produtos comercializados, inclusive já importados pelo Brasil, como os tecidos.

Assim, a ausência de uma definição legal clara, estabelecimento de limite oficial permitido de THC para cânhamo e normas técnicas agrícolas e industriais, criam insegurança jurídica total para aqueles que desejam empreender neste mercado inexplorado no Brasil.

Como resultado, temos que nenhum produtor, investidor, banco ou empreendedor entra em um setor sem clareza na regra do jogo.

[ 2 ] Temores e receios institucionais que travam o avanço

Podemos admitir como nó político-regulatório:

1) Temor da abertura das porta

  • Receio (equivocado) de que regulamentar cânhamo irá fragilizar políticas de repressão às drogas e dificultar a fiscalização policial.

  • Ignora-se que países como França, Canadá e Alemanha regulam cânhamo sem qualquer impacto negativo no controle de entorpecentes.

2) Fragmentação institucional

  • Agricultura, Saúde, Justiça, Meio Ambiente e Indústria não falam a mesma língua, em uma análise mais contundente. Sendo mais cautelosos na análise, dizemos que interagem muito pouco na solução de alguns entraves.

  • Falta um marco transversal, como ocorreu com soja, etanol e biodiesel.

Portanto, com efeito, o receio de liberar o plantio para cânhamo não é meramente técnico, mas sim político e administrativo.

[ 3 ] Capacidade e potencial do negócio agropecuário brasileiro

Creio que estamos diante de um paradoxo: “O Brasil é uma potência agroindustrial global, mas está ausente de uma das culturas mais estratégicas do século XXI”.

Possuímos, conforme já sabido por todos os especialistas, que temos condições naturais ideais para desenvolver e liderar o plantio do cânhamo utilizando nosso território, pois clima favorável no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Solos adaptáveis. Experiência e tecnologias consolidadas em grãos, fibras, biomassa e uma forte cultura industrial.

Adquirimos, ao longo de décadas, infraestrutura específica e bem desenvolvida em:

  • Maquinário agrícola moderno e adaptável.

  • Logística de exportação.

  • Cooperativas e agroindústrias maduras.

  • Suporte técnico de pesquisa agropecuária.

  • Fornecimento de insumos de alto nível.

Nesse sentido, não nos falta capacidade, estrutura e tecnologia. Falta permissão ou desejo político para que esse setor floresça.

[ 4 ] Lacunas Normativas e Impactos na Estruturação da Cadeia Produtiva do Cânhamo

Sem normas, o mercado não nasce, pois a ausência delas impedem:

  • certificação e aprimoramento de sementes;

  • pesquisa e desenvolvimento das plantas;

  • padronização de fibras e hurds;

  • desenvolvimento dos ensaios químicos, mecânicos e térmicos (ex.: hempcrete);

  • aceitação por:

    • construtoras

    • empresas agrícolas

    • indústrias têxteis e madeireiras

    • seguradoras

    • bancos

    • órgãos de fomento

A inexistência de liberação normativa e de marcos regulatórios adequados compromete a segurança jurídica do setor, elemento essencial para a atração de investimentos privados e financiamentos institucionais. Em ambientes de elevada incerteza regulatória, o capital tende a migrar para setores com maior previsibilidade normativa.

A ausência de crédito, de investimentos estruturantes e de políticas de fomento inviabiliza a consolidação da produção e da cadeia produtiva. Assim, as lacunas regulatórias tornam-se fator determinante na limitação do desenvolvimento econômico, impactando diretamente a geração de empregos, a ampliação da renda, a abertura de novas empresas, a expansão logística, a competitividade internacional e a criação de novos mercados.

Experiências internacionais demonstram que a regulamentação clara e estável foi elemento decisivo para a consolidação do mercado de cânhamo em países como Canadá, Estados Unidos e membros da União Europeia.

6) Onde o Brasil entra (ou deveria entrar) no cenário mundial do cânhamo

O Brasil não perde riquezas não é porque não sabe produzir, mas perde riquezas porque não há mecanismo que autorize e estimule o mercado e a produção com clareza e segurança jurídica imprescindível para todos os setores industriais que resolvam investir no cânhamo.

[ 7 ] Receita, riqueza e impacto que poderiam ser gerados

Estimativas conservadoras indicam negócios de bilhões de reais/ano em construção sustentável, biomateriais, exportação de insumos e produtos, com geração de empregos rurais e industriais, inovação tecnológica e liderança regional na América Latina.

O cânhamo poderia ser para o Brasil o que o linho é para a França, o cânhamo industrial é para o Canadá e o bambu é para a Ásia.

Conclusão

Este artigo evidenciou as múltiplas aplicações do cânhamo industrial em diversos setores da economia, destacando seu potencial produtivo, ambiental e econômico. Outras possibilidades, como sua capacidade de fitorremediação e a redução de impactos ambientais quando comparado a culturas florestais tradicionais, também reforçam sua relevância estratégica.

A experiência internacional demonstra que países que regulamentaram o cultivo e o uso industrial do cânhamo transformaram essa cultura em um segmento economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente gerador de renda e empregos. A viabilidade econômica e o potencial de geração de riquezas são amplamente demonstráveis.

No caso brasileiro, não há carência de capacidade técnica, agrícola ou industrial. O país dispõe de tecnologia agropecuária avançada, cadeia estruturada de insumos, indústria consolidada de implementos agrícolas, disponibilidade de terras férteis e clima favorável, além de reconhecida vocação histórica para o agronegócio.

O entrave, portanto, não é produtivo, mas regulatório e institucional.

O setor agropecuário possui capacidade operacional;
a indústria apresenta demanda concreta;
o mercado demonstra interesse crescente;
e o cenário internacional já consolidou marcos regulatórios.

O que se impõe, portanto, é uma decisão política e institucional que estabeleça segurança jurídica e permita ao Brasil integrar-se de forma competitiva a esse mercado global.

Fontes e Referências

  1. CALIXTO, JAIR. Aplicações Industriais e Perspectivas Econômicas do Cânhamo. Instituto de Ciência e Tecnologia Cannabis Brasil. Publicação 30/9/2025. Disponível em: https://www.ictcannabisbrasil.com/aplicacoes-industriais-e-perspectivas-economicas-do-canhamo. Acessado: 09/02/2026.

  2. GUIA SECHAT da Cannabis, 3ª edição. 2023.

  3. SULLIVAN, Pauline; CHAN-HALBRENDT, Catherine; LIN, M. A. TUN. “Sustainable Development: Building a Case for Hemp.” Journal of Textile and Apparel, Technology and Management, v. 4, n. 3, mar. 2005.

  4. BAPTISTA, C.; SANTOS, N.F. “Cânhamo: aplicações papeleiras.” Agroforum: Revista da Escola Superior Agrária de Castelo Branco. ISSN 0872-2617. Ano 7, n. 14, p. 37-40, 1999.

  5. STRUIK, P.C. et al. “Agronomy of fibre hemp (Cannabis sativa L.) in Europe.” 1999.

  6. PICKERING, K.L.; EFENDY, M.A.; Le, T.M. “A review of recent developments in natural fibre composites and their mechanical performance.” Compos A Appl Sci Manuf., v. 83, p. 98–112, 2016.

  7. KRAENZEL, D.G. et al. “Industrial hemp as an alternative crop in North Dakota.” 1998. Disponível em: ageconsearch.umn.edu

  8. VISKOVI´C, J. et al. “Industrial Hemp (Cannabis sativa L.) Agronomy and Utilization: A Review.”

  9. ROSA, T. M. O cânhamo industrial no Brasil: subsídios para a construção de uma política pública. 2018.

  10. NHA – National Hemp Association. “A View Of The Future Of Hemp Plastic.” Disponível em: <https://nationalhempassociation.org/national-hemp-association-agm-presents-positive-future-2/> Acesso em: 27 ago. 2025.

  11. SECHAT. “Plástico de cânhamo: o que é e como é feito.” Por João Negromonte. Publicado em: 3 nov. 2022. Disponível em: <https://sechat.com.br/noticia/plastico-de-canhamo>. Acesso em: 27 ago. 2025.

  12. FASHION NETWORK. “China pretende aumentar o emprego do cânhamo na indústria têxtil.” Disponível em: <https://br.fashionnetwork.com/news/China-pretende-aumentar-o-emprego-do-canhamo-na-industria-textil,689991.html>. Acesso em: 28 ago. 2025.

  13. BUTSIC, R. et al. “The effect of legal marijuana on cannabis markets and crime.” Nature Human Behaviour, v. 2, n. 4, p. 274–280, 2018.

  14. ŻUK-GOŁASZEWSKA, K.; GOŁASZEWSKI, J. “The economics of industrial hemp.” Sustainability, v. 12, n. 15, p. 6114, 2020.

  15. ROCHA, A.; OLIVEIRA, S.; SOUZA, A. “Potencialidades e desafios do cânhamo industrial no Brasil: um estudo de caso do Vale do São Francisco.” Revista de Economia e Agronegócio, v. 16, n. 2, p. 119-140, 2018.

  16. FRAGA, D.; IULIANELLI, J. “O cultivo de cannabis no Brasil: uma análise da dinâmica da produção ilegal.” Revista de Sociologia e Política, v. 19, n. 39, p. 153-169, 2011.

  17. UNITED NATIONS. Commodities at a Glance. Special issue on industrial hemp nº16. Disponível em: https://unctad.org/system/files/official-document/ditccom2022d1_en.pdf. Acessado: 09/02/2026.

  18. NLM. STEVULONA, NADEZDA ; CIGASOVA, JULIA; ESTOKOVA, ADRIANA; TERPAKOVA, EVA; GEFFERT, ANTON ; KACIK, FRANTISEK ; SINGOVSZKA, EVA; HOLUB, MARIAN . Properties Characterization of Chemically Modified Hemp Hurds. Dec, 2014. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5456447/? Acessado: 09/02/2026.

  19. FORTUNE BUSSINESS INSIGHTS. Hemp Fiber Market Size, Share & Industry Analysis, By Type (Bast, Hurd/Shives, Tow, and Others), By End-Use (Textiles & Apparel, Composites, Pulp & Paper, Bioplastics & Additives, and Others), and Regional Forecast, 2026-2034

    Last Updated: January 26, 2026 | Format: PDF | Report ID: FBI113975

    Disponível em: https://www.fortunebusinessinsights.com/hemp-fiber-market-113975?. Acessado: 09/02/2026.

  20. APETROAEI, C. Hemp Seeds (Cannabis sativa L.) as a Valuable Source of Nutrients and Bioactive Compounds: A Review. Molecules, 2024.

  21. ISLAM, M. T.; et al. Nutrient Profiles and Bioavailability in Industrial Hemp (Cannabis sativa L.): A Comprehensive Review. Molecules, 2025.

  22. MARIZ, G.; et al. Hemp: From Field to Fiber—A Review. AgriEngineering, 2024.

  23. PROMHUAD, K.; et al. Applications of Hemp Polymers and Extracts in Food, Textile and Packaging: A Review. Polymers, 2022.

  24. TONG, J.; et al. State of the Art Review on Hempcrete as a Sustainable Building Material. Buildings, 2025.

  25. XANTHOPOULOU, A.; et al. Eco-Friendly Hemp-Fiber-Reinforced Polymer Composites. Materials, 2023.

  26. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. FAOSTAT Database. 2021.

  27. EUROPEAN COMMISSION. Hemp production in the EU. 2023.

    Literaturas consultadas para o Bloco 4

  28. GLOBAL MARKET INSIGHTS. Hempcrete Market Size - By Binder Type, Construction Method, Application, End Use Analysis, Share, Growth Forecast, 2025 – 2034.

    Published Date: August 2025. Disponível em: https://www.gminsights.com/industry-analysis/hempcrete-market? Acessado: 09/02/2026.

  29. MDPI. LOUIZA SIOUTA, LOUIZA; APOSTOLOPOULOU, MARIA AND BAKOLAS, ASTERIOS. Natural Fibers in Composite Materials for Sustainable Building: A State-of-the-Art Review on Treated Hemp Fibers and Hurds in Mortars. Laboratory of Materials Science & Engineering, School of Chemical Engineering, National Technical University of Athens. Published: 27 November 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/2071-1050/16/23/10368? Acessado: 09/02/2026.

  30. MDPI. TSALIKI, ELENI; KALIVAS, APOSTOLOS ; JANKAUSKIENE, ZOFIJA; IRAKLI, MARIA ; COOK ,CATHERINE; GRIGORIADIS, IOANNIS; PANORAS, IOANNIS; VASILAKOGLOU, IOANNIS & DHIMA, KITSIOS. Fibre and Seed Productivity of Industrial Hemp (Cannabis sativa L.) Varieties under Mediterranean Conditions. January, 2021. Disponível em: https://www.mdpi.com/2073-4395/11/1/171? Acessado: 09/02/2026.

  31. S & S INSIDER. Hemp Seed Market Size, Share & Segmentation by Form (Hemp Seed Oil, Hemp Seed Protein, Whole Hemp Seed, Hulled Hemp Seed, Hemp Protein Powder, and Others), by Application (Food and Beverages, Cosmetics, Nutritional Supplements, Industrial products, Pharmaceuticals, Personal Care Products, and Others), by Regions and Global Forecast 2024-2032. September 2024. Disponível em: https://www.snsinsider.com/reports/hemp-seed-market-4009? Acessado: 09/02/2026.

    Fontes consultadas para o Bloco 6 - itens de [1] a [7]:

  32. FAO. Industrial Hemp (Cannabis sativa L.): Production, Processing and Markets. FAO Agricultural Services Bulletin. Nota: Base global sobre produção agrícola, fibras, sementes e usos industriais.

  33. European Commission. Hemp production and regulation in the European Union. Directorate-General for Agriculture and Rural Development. Nota: Fundamenta a liderança europeia (França, Alemanha, Itália).

  34. USDA. . United States Department of Agriculture. Industrial Hemp Production Program. Nota: Dados sobre cultivo, mercado, limites de THC e gargalos.

  35. Health Canada. Industrial Hemp Regulations – Overview and Market Data. Nota: Referência mundial em sementes, grãos e alimentos.

  36. Ministério da Agricultura. Câmaras Setoriais e Políticas para Culturas Industriais. Nota: Ausência explícita de cânhamo como cultura autorizada.

  37. IPEA. Economia Verde, Bioeconomia e Gargalos Regulatórios no Brasil. Nota: Base para o argumento de “potencial reprimido por regulação”.

  38. EMBRAPA. Capacidade produtiva brasileira em fibras, biomassa e culturas industriais. Nota: Sustenta a afirmação de capacidade técnica instalada.

  39. MAPA. Panorama do Agronegócio Brasileiro. Nota: Demonstra infraestrutura, logística e escala produtiva.

  40. World Bank. Brazil – Agricultural Productivity and Sustainability. Nota: Fundamenta o potencial competitivo global.

  41. RILEM. State of the Art on Hemp Lime (Hempcrete). Nota: Principal referência técnico-científica sobre hempcrete.

  42. ASTM. Standards for Bio-based Building Materials. Nota: Demonstra importância de normas para aceitação de mercado.

  43. ISO. Sustainability in Construction Works. Nota: Base normativa para materiais de baixo carbono.

  44. CBCS. Construção Sustentável e Materiais Inovadores no Brasil. Nota: Conecta cânhamo ao mercado brasileiro.

  45. McKinsey & Company. The Bioeconomy: Delivering Sustainable Growth. Nota: Base para projeções de mercado e riqueza.

  46. WEF. Nature Positive Materials and the Future of Construction. Nota: Sustenta demanda ESG e biomateriais.

  47. IEA. Low-Carbon Materials for the Built Environment. Nota: Fundamenta redução de carbono na construção.

*Diretor farmacêutico do ICTCB – Instituto de Ciência e Tecnologia Cannabis Brasil

Figura 7 – Fios e tecido obtidos a partir do cânhamo. Ref.: próprio autor – gerada por IA.

Construção civil (blocos, painéis, hempcrete)

  • Brasil é um dos maiores mercados de construção do mundo.

  • Existe no país, um déficit habitacional crônico.

  • Demanda crescente por materiais de baixo carbono, isolamento, térmico/acústico

  • Potencial imediato para blocos estruturais, vedação, reformas sustentáveis.

Substituição de madeira

  • Redução de pressão sobre florestas: aplicações em painéis, MDF ecológico e elementos arquitetônicos.

Têxteis e fibras técnica

  • Cadeia têxtil já instalada, forte apelo ESG e a possibilidade de: tecidos técnicos,

compósitos automotivos e geotêxteis.

Biomateriais e indústria

  • Bioplásticos, Isolantes, Papel técnico e Economia circular

ESG: Enviromental, Social and Governance. MDF: Medium Density Fiberboard.

[ 6 ] O elo crítico: normas inexistentes × potencial desperdiçado × riqueza não gerada

[ 5 ] Potencial do mercado brasileiro (onde está o dinheiro)

Figura 1 – Diversas possibilidades de uso do cânhamo.

Nota: a figura acima é apenas ilustrativa e não demonstra todo o potencial de uso do cânhamo. Além disso, não discutiremos aqui o papel do seu uso em medicamentos e cosméticos.

“Cânhamo Industrial: Potencial Econômico e Necessidade de Regulamentação no Brasil”

O Brasil não perde riquezas não é porque não sabe produzir, mas perde riquezas porque não há mecanismo que autorize e estimule o mercado e a produção com clareza e segurança jurídica imprescindível para todos os setores industriais que resolvam investir no cânhamo.

[ 7 ] Receita, riqueza e impacto que poderiam ser gerados

Estimativas conservadoras indicam negócios de bilhões de reais/ano em construção sustentável, biomateriais, exportação de insumos e produtos, com geração de empregos rurais e industriais, inovação tecnológica e liderança regional na América Latina.

O cânhamo poderia ser para o Brasil o que o linho é para a França, o cânhamo industrial é para o Canadá e o bambu é para a Ásia.

Conclusão

Este artigo evidenciou as múltiplas aplicações do cânhamo industrial em diversos setores da economia, destacando seu potencial produtivo, ambiental e econômico. Outras possibilidades, como sua capacidade de fitorremediação e a redução de impactos ambientais quando comparado a culturas florestais tradicionais, também reforçam sua relevância estratégica.

A experiência internacional demonstra que países que regulamentaram o cultivo e o uso industrial do cânhamo transformaram essa cultura em um segmento economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente gerador de renda e empregos. A viabilidade econômica e o potencial de geração de riquezas são amplamente demonstráveis.

No caso brasileiro, não há carência de capacidade técnica, agrícola ou industrial. O país dispõe de tecnologia agropecuária avançada, cadeia estruturada de insumos, indústria consolidada de implementos agrícolas, disponibilidade de terras férteis e clima favorável, além de reconhecida vocação histórica para o agronegócio.

O entrave, portanto, não é produtivo, mas regulatório e institucional.

O setor agropecuário possui capacidade operacional;
a indústria apresenta demanda concreta;
o mercado demonstra interesse crescente;
e o cenário internacional já consolidou marcos regulatórios.

O que se impõe, portanto, é uma decisão política e institucional que estabeleça segurança jurídica e permita ao Brasil integrar-se de forma competitiva a esse mercado global.

Fontes e Referências

  1. CALIXTO, JAIR. Aplicações Industriais e Perspectivas Econômicas do Cânhamo. Instituto de Ciência e Tecnologia Cannabis Brasil. Publicação 30/9/2025. Disponível em: https://www.ictcannabisbrasil.com/aplicacoes-industriais-e-perspectivas-economicas-do-canhamo. Acessado: 09/02/2026.

  2. GUIA SECHAT da Cannabis, 3ª edição. 2023.

  3. SULLIVAN, Pauline; CHAN-HALBRENDT, Catherine; LIN, M. A. TUN. “Sustainable Development: Building a Case for Hemp.” Journal of Textile and Apparel, Technology and Management, v. 4, n. 3, mar. 2005.

  4. BAPTISTA, C.; SANTOS, N.F. “Cânhamo: aplicações papeleiras.” Agroforum: Revista da Escola Superior Agrária de Castelo Branco. ISSN 0872-2617. Ano 7, n. 14, p. 37-40, 1999.

  5. STRUIK, P.C. et al. “Agronomy of fibre hemp (Cannabis sativa L.) in Europe.” 1999.

  6. PICKERING, K.L.; EFENDY, M.A.; Le, T.M. “A review of recent developments in natural fibre composites and their mechanical performance.” Compos A Appl Sci Manuf., v. 83, p. 98–112, 2016.

  7. KRAENZEL, D.G. et al. “Industrial hemp as an alternative crop in North Dakota.” 1998. Disponível em: ageconsearch.umn.edu

  8. VISKOVI´C, J. et al. “Industrial Hemp (Cannabis sativa L.) Agronomy and Utilization: A Review.”

  9. ROSA, T. M. O cânhamo industrial no Brasil: subsídios para a construção de uma política pública. 2018.

  10. NHA – National Hemp Association. “A View Of The Future Of Hemp Plastic.” Disponível em: <https://nationalhempassociation.org/national-hemp-association-agm-presents-positive-future-2/> Acesso em: 27 ago. 2025.

  11. SECHAT. “Plástico de cânhamo: o que é e como é feito.” Por João Negromonte. Publicado em: 3 nov. 2022. Disponível em: <https://sechat.com.br/noticia/plastico-de-canhamo>. Acesso em: 27 ago. 2025.

  12. FASHION NETWORK. “China pretende aumentar o emprego do cânhamo na indústria têxtil.” Disponível em: <https://br.fashionnetwork.com/news/China-pretende-aumentar-o-emprego-do-canhamo-na-industria-textil,689991.html>. Acesso em: 28 ago. 2025.

  13. BUTSIC, R. et al. “The effect of legal marijuana on cannabis markets and crime.” Nature Human Behaviour, v. 2, n. 4, p. 274–280, 2018.

  14. ŻUK-GOŁASZEWSKA, K.; GOŁASZEWSKI, J. “The economics of industrial hemp.” Sustainability, v. 12, n. 15, p. 6114, 2020.

  15. ROCHA, A.; OLIVEIRA, S.; SOUZA, A. “Potencialidades e desafios do cânhamo industrial no Brasil: um estudo de caso do Vale do São Francisco.” Revista de Economia e Agronegócio, v. 16, n. 2, p. 119-140, 2018.

  16. FRAGA, D.; IULIANELLI, J. “O cultivo de cannabis no Brasil: uma análise da dinâmica da produção ilegal.” Revista de Sociologia e Política, v. 19, n. 39, p. 153-169, 2011.

  17. UNITED NATIONS. Commodities at a Glance. Special issue on industrial hemp nº16. Disponível em: https://unctad.org/system/files/official-document/ditccom2022d1_en.pdf. Acessado: 09/02/2026.

  18. NLM. STEVULONA, NADEZDA ; CIGASOVA, JULIA; ESTOKOVA, ADRIANA; TERPAKOVA, EVA; GEFFERT, ANTON ; KACIK, FRANTISEK ; SINGOVSZKA, EVA; HOLUB, MARIAN . Properties Characterization of Chemically Modified Hemp Hurds. Dec, 2014. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5456447/? Acessado: 09/02/2026.

  19. FORTUNE BUSSINESS INSIGHTS. Hemp Fiber Market Size, Share & Industry Analysis, By Type (Bast, Hurd/Shives, Tow, and Others), By End-Use (Textiles & Apparel, Composites, Pulp & Paper, Bioplastics & Additives, and Others), and Regional Forecast, 2026-2034

    Last Updated: January 26, 2026 | Format: PDF | Report ID: FBI113975

    Disponível em: https://www.fortunebusinessinsights.com/hemp-fiber-market-113975?. Acessado: 09/02/2026.

  20. APETROAEI, C. Hemp Seeds (Cannabis sativa L.) as a Valuable Source of Nutrients and Bioactive Compounds: A Review. Molecules, 2024.

  21. ISLAM, M. T.; et al. Nutrient Profiles and Bioavailability in Industrial Hemp (Cannabis sativa L.): A Comprehensive Review. Molecules, 2025.

  22. MARIZ, G.; et al. Hemp: From Field to Fiber—A Review. AgriEngineering, 2024.

  23. PROMHUAD, K.; et al. Applications of Hemp Polymers and Extracts in Food, Textile and Packaging: A Review. Polymers, 2022.

  24. TONG, J.; et al. State of the Art Review on Hempcrete as a Sustainable Building Material. Buildings, 2025.

  25. XANTHOPOULOU, A.; et al. Eco-Friendly Hemp-Fiber-Reinforced Polymer Composites. Materials, 2023.

  26. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. FAOSTAT Database. 2021.

  27. EUROPEAN COMMISSION. Hemp production in the EU. 2023.

    Literaturas consultadas para o Bloco 4

  28. GLOBAL MARKET INSIGHTS. Hempcrete Market Size - By Binder Type, Construction Method, Application, End Use Analysis, Share, Growth Forecast, 2025 – 2034.

    Published Date: August 2025. Disponível em: https://www.gminsights.com/industry-analysis/hempcrete-market? Acessado: 09/02/2026.

  29. MDPI. LOUIZA SIOUTA, LOUIZA; APOSTOLOPOULOU, MARIA AND BAKOLAS, ASTERIOS. Natural Fibers in Composite Materials for Sustainable Building: A State-of-the-Art Review on Treated Hemp Fibers and Hurds in Mortars. Laboratory of Materials Science & Engineering, School of Chemical Engineering, National Technical University of Athens. Published: 27 November 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/2071-1050/16/23/10368? Acessado: 09/02/2026.

  30. MDPI. TSALIKI, ELENI; KALIVAS, APOSTOLOS ; JANKAUSKIENE, ZOFIJA; IRAKLI, MARIA ; COOK ,CATHERINE; GRIGORIADIS, IOANNIS; PANORAS, IOANNIS; VASILAKOGLOU, IOANNIS & DHIMA, KITSIOS. Fibre and Seed Productivity of Industrial Hemp (Cannabis sativa L.) Varieties under Mediterranean Conditions. January, 2021. Disponível em: https://www.mdpi.com/2073-4395/11/1/171? Acessado: 09/02/2026.

  31. S & S INSIDER. Hemp Seed Market Size, Share & Segmentation by Form (Hemp Seed Oil, Hemp Seed Protein, Whole Hemp Seed, Hulled Hemp Seed, Hemp Protein Powder, and Others), by Application (Food and Beverages, Cosmetics, Nutritional Supplements, Industrial products, Pharmaceuticals, Personal Care Products, and Others), by Regions and Global Forecast 2024-2032. September 2024. Disponível em: https://www.snsinsider.com/reports/hemp-seed-market-4009? Acessado: 09/02/2026.

    Fontes consultadas para o Bloco 6 - itens de [1] a [7]:

  32. FAO. Industrial Hemp (Cannabis sativa L.): Production, Processing and Markets. FAO Agricultural Services Bulletin. Nota: Base global sobre produção agrícola, fibras, sementes e usos industriais.

  33. European Commission. Hemp production and regulation in the European Union. Directorate-General for Agriculture and Rural Development. Nota: Fundamenta a liderança europeia (França, Alemanha, Itália).

  34. USDA. . United States Department of Agriculture. Industrial Hemp Production Program. Nota: Dados sobre cultivo, mercado, limites de THC e gargalos.

  35. Health Canada. Industrial Hemp Regulations – Overview and Market Data. Nota: Referência mundial em sementes, grãos e alimentos.

  36. Ministério da Agricultura. Câmaras Setoriais e Políticas para Culturas Industriais. Nota: Ausência explícita de cânhamo como cultura autorizada.

  37. IPEA. Economia Verde, Bioeconomia e Gargalos Regulatórios no Brasil. Nota: Base para o argumento de “potencial reprimido por regulação”.

  38. EMBRAPA. Capacidade produtiva brasileira em fibras, biomassa e culturas industriais. Nota: Sustenta a afirmação de capacidade técnica instalada.

  39. MAPA. Panorama do Agronegócio Brasileiro. Nota: Demonstra infraestrutura, logística e escala produtiva.

  40. World Bank. Brazil – Agricultural Productivity and Sustainability. Nota: Fundamenta o potencial competitivo global.

  41. RILEM. State of the Art on Hemp Lime (Hempcrete). Nota: Principal referência técnico-científica sobre hempcrete.

  42. ASTM. Standards for Bio-based Building Materials. Nota: Demonstra importância de normas para aceitação de mercado.

  43. ISO. Sustainability in Construction Works. Nota: Base normativa para materiais de baixo carbono.

  44. CBCS. Construção Sustentável e Materiais Inovadores no Brasil. Nota: Conecta cânhamo ao mercado brasileiro.

  45. McKinsey & Company. The Bioeconomy: Delivering Sustainable Growth. Nota: Base para projeções de mercado e riqueza.

  46. WEF. Nature Positive Materials and the Future of Construction. Nota: Sustenta demanda ESG e biomateriais.

  47. IEA. Low-Carbon Materials for the Built Environment. Nota: Fundamenta redução de carbono na construção.

*Diretor farmacêutico do ICTCB – Instituto de Ciência e Tecnologia Cannabis Brasil

por Jair Calixto*

Introdução

O termo “cânhamo industrial” tem sido, nos últimos dois anos, abordado por diversos especialistas e pela imprensa em geral, como mais uma forma de aproveitamento deste vegetal para múltiplos propósitos, dentro de diferentes setores industriais, como a indústria de construção civil, decoração, indústria moveleira, indústria têxtil, indústria do papel e até materiais compostos para substituição ao plástico.

O cânhamo, uma variedade da Cannabis sativa L., tem ganhado destaque por suas diversas aplicações e benefícios, principalmente com a legalização do seu cultivo em vários países, mas não por aqui, cuja liberação beneficiou apenas o setor da pesquisa acadêmica e da indústria farmacêutica, cujas aplicações estão restritas ao uso medicinal.

Afinal, o que é o Cânhamo?

O cânhamo industrial pode ser considerado como a Cannabis sativa e a Cannabis indica subsp. Chinensis*, que possuem baixíssimos índices de THC, o que não os enquadra como drogas psicoativas [3]. Contudo, essa característica pode ser contornada com regulamentação específica, controles efetivos do plantio e regularização das empresas, potenciais cultivadoras, nos órgãos reguladores competentes.

Conforme já mencionado em outras publicações, o cânhamo não possui interesse para uso recreativo e, sua espécie vegetal de interesse industrial, se diferencia da Cannabis para uso medicinal devido ao seu tamanho e constituição, cujos cultivares de fibra são cultivadas em alta densidade, não são ramificadas e são muito altas.

E qual a utilidade do Cânhamo Industrial?

É uma planta extremamente versátil que se destaca em diversos setores da economia e áreas relacionadas com recurso naturais e despoluição do meio ambiente. Kraenzel [6] classifica a aplicação de seus mais de 25.000 produtos em nove setores: agricultura, automotivo, construção civil, cosméticos, alimentação/nutrição/bebidas, mobília, papel e celulose, reciclagem e têxtil.

Indústrias diversas: As fibras de cânhamo são usadas em tecidos e têxteis, fios, papel, carpetes, cordas, móveis domésticos, materiais de construção e isolamento, autopeças e compósitos e biocombustíveis, bioplásticos.

Construção: Material de construção sustentável, como concreto de cânhamo, madeira e tijolos.

Alimentação: Óleo de cânhamo rico em CBD e ômega-3, sementes com alto valor nutritivo; nutrição animal; proteína em pó; farinha de cânhamo. Óleo de cânhamo pode ser utilizado em cosméticos e produtos para cuidados com a pele.

As sementes de cânhamo são ricas em proteínas, fibras, ácidos graxos saudáveis e vitaminas.

Veterinária: Aditivos alimentares e Saúde Animal.

Energia: como combustível (biodiesel).

*https://www.ictcannabisbrasil.com/diferenciacao-entre-canhamo-e-cannabis-medicinal-concentracoes-de-thc-e-cbd

Figura 2 – Blocos de concreto de cânhamo. Fonte: arquivo próprio do autor.

Aspectos da Produção Mundial

Produção Global

Uma estimativa conservadora da produção global total de cânhamo (biomassa relatada / fibra (blast) + hurds) se situa ao redor de 275.000 a 320.000 t/ano. Podemos tomar 300.000 t/ano como valor de referência.

Observação: diferentes fontes usam coberturas nacionais distintas (FAO/estatísticas nacionais), daí a faixa; a UNCTAD -Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento - e estudos acadêmicos indicam um intervalo nessa ordem de grandeza para anos recentes. [17]

Composição da planta

Fontes técnicas concordam em que, por peso do caule seco:

  • Bast (fibras longas que cobrem os hurds) = entre 20 e 30% do peso do talo seco.

  • Hurds / shives (miolo lenhoso) = entre 60 e 80% do talo seco.

  • Sementes são colhidas separadamente e não estão totalmente representadas na estatística “fibra” em alguns bancos de dados. [18]

Estimativa — divisão em bast fiber e hurds (toneladas)

Tomando 300.000 t/ano como referência central:

  • Bast (20–30%) → 60.000 t a 90.000 t / ano.

  • Hurds (60–80%) → 180.000 t a 240.000 t / ano. [19]

4) Como esses componentes são usados — estimativa por aplicação (toneladas / ano)

Projeção Técnica da Distribuição Industrial do Cânhamo

(Modelagem baseada em dados oficiais e literatura científica)

A inexistência de estatísticas globais consolidadas que segmentem a produção de cânhamo por aplicação industrial em termos volumétricos impõe a necessidade de abordagens inferenciais. Assim, a presente seção apresenta uma modelagem técnica explícita, construída a partir de dados oficialmente rastreáveis e proporções amplamente aceitas na literatura científica.

Metodologia da Modelagem

A projeção foi elaborada com base nos seguintes parâmetros documentados:

  • Produção global anual de fibra de cânhamo: aproximadamente 287.000 t/ano, segundo FAOSTAT [26].

  • Estrutura média do talo: Fibras bast: 25–35% da massa seca.

    • Fração lenhosa (hurds): 60–70% da massa seca
      conforme revisões técnicas [22].

    • Destinação industrial qualitativa: Construção como principal mercado dos hurds na Europa [24,27]; Têxteis, compósitos e papéis técnicos como principais destinos do bast [22,23,25]; Bioplásticos e aplicações químicas como segmentos emergentes [23, 25].

A partir desses parâmetros, foram estimadas faixas de consumo potencial, sem pretensão de representar valores estatísticos oficiais.

Resultados da Projeção por Segmento Industrial

A — Têxteis (fibras - bast)

Considerando uma disponibilidade global de fibras bast da ordem de 72.000 a 100.000 t/ano (25–35% da produção total) [22,26], e a relevância histórica e técnica do setor têxtil, estima-se que aproximadamente 30–45% dessa fração possa ser direcionada a aplicações têxteis industriais.

Estimativa projetada: ≈ 22.000 – 45.000 t/ano (modelagem inferencial).

B — Papel e Papéis Técnicos

A literatura indica que o uso de cânhamo em papel concentra-se em nichos técnicos e especiais, representando uma fração reduzida da fibra disponível [23]. Considerando uma conversão limitada do bast e pequenas frações dos hurds processados para celulose técnica:

Estimativa projetada: ≈ 6.000 – 10.000 t/ano.

C — Construção (Hempcrete e isolamento)

Os hurds representam aproximadamente 170.000 a 200.000 t/ano da biomassa global disponível [22,26]. Estudos indicam que a construção é atualmente o principal destino dessa fração na Europa, com crescimento contínuo [24,27].

Assumindo que 50–70% dos hurds sejam absorvidos por aplicações construtivas:

Estimativa projetada: ≈ 85.000 – 140.000 t/ano.

D — Compósitos e aplicações automotivas

Aplicações em compósitos utilizam predominantemente fibras bast de melhor qualidade, com menor volume relativo, porém maior valor agregado [25]. Considerando uma fração moderada da disponibilidade global de bast:

Estimativa projetada: ≈ 10.000 – 30.000 t/ano.

E — Pisos e revestimentos compósitos

Pisos e revestimentos representam um subconjunto das aplicações em compósitos, ainda em fase de expansão industrial [23, 25]. A destinação volumétrica é, portanto, restrita quando comparada a painéis estruturais ou automotivos.

Estimativa projetada: ≈ 3.000 – 12.000 t/ano.

F — Papelão técnico e fibras celulósicas industriais

A utilização do cânhamo em papelão técnico e processos industriais celulósicos é mencionada como aplicação especializada [23]. Considerando o caráter técnico e não massificado:

Estimativa projetada: ≈ 5.000 – 20.000 t/ano.

G — Bioplásticos e bio-compósitos

A literatura caracteriza o uso de fibras de cânhamo em bioplásticos como emergente, com volumes ainda reduzidos em comparação a aplicações tradicionais [23,25].

Estimativa projetada: ≈ 1.000 – 6.000 t/ano.

H — Biocombustíveis (óleo de semente)

As sementes de cânhamo representam uma fração menor da biomassa total e são majoritariamente destinadas à alimentação e à indústria cosmética [20]. Embora exista potencial técnico para biodiesel, a disponibilidade atual de óleo para esse fim é limitada.

Estimativa projetada: ordem de milhares a poucas dezenas de milhares de toneladas de sementes por ano, dependendo do país [20, 21].

I — Alimentos, óleo e proteínas (sementes)

A produção de sementes para alimentação humana e animal constitui o principal destino econômico dessa fração, com mercado global estimado em USD 1,0–1,1 bilhão em 2023 [20, 21]. Em termos físicos, os volumes concentram-se em países como França, Canadá e China.

Estimativa qualitativa: dezenas de milhares de toneladas de sementes por ano, globalmente.

Notas: as estimativas apresentadas:

  • Não substituem dados estatísticos oficiais;

  • Servem como ferramenta analítica para compreensão da distribuição industrial;

  • Estão fundamentadas em dados rastreáveis e literatura revisada;

  • Evidenciam a predominância da construção, seguida por têxteis e compósitos, como principais destinos industriais do cânhamo.

Essa abordagem permite integrar números, rigor científico e transparência metodológica, fortalecendo a análise estratégica do setor.

REFERÊNCIAS NUMERADAS

Resumo da Produção Mundial

Tabela 1- Produção mundial de cânhamos e seus produtos. Fonte: citadas em 4A a 4I.

Produção e Mercado de Cânhamo — Principais Países (2022–2023)

Tabela 2- Principais países produtores de cânhamos e seus produtos.

Observação metodológica. Os dados apresentados combinam estatísticas agrícolas oficiais (Comissão Europeia, USDA/NASS, Statistics Canada) e relatórios de mercado setoriais para valores econômicos. Quando indicado como “estimativa”, refere-se a projeções de mercado ou dados preliminares de colheita.

5) Mercado Brasileiro

Alguns autores relatam as primeiras experiências brasileiras com cânhamo industrial desde o século XIX (fios, tecidos e cordas), em Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro [9].

Hoje a produção comercial de cânhamo industrial no Brasil é muito limitada. Na prática a cadeia está essencialmente em fase experimental, com projetos de P&D e de projetos piloto. Fonte: https://www.embrapa.br/pdi-para-o-desenvolvimento-do-canhamo-no-brasil?

Várias instituições e associações estão produzindo estudos e roadmaps para viabilizar uma cadeia nacional (fibras, sementes/óleos, cosméticos, biomateriais como hempcrete). Entre os atores, destacam-se a Embrapa, o Instituto Escolhas, o Instituto Ficus e associações setoriais como a Associação Nacional do Cânhamo e a ABICANN. Fonte: https://abicann.org/?

Estudos recentes elaboram cenários de potencial (se a regulação for definida): por exemplo, um relatório técnico apontou 64.103 ha plantados como cenário de implantação nacional até 2030, com receitas líquidas estimadas de ≈ R$ 5,76 bilhões e geração de cerca de 14.485 empregos diretos (estimativas de estudos brasileiros sobre potencial econômico). Fonte: https://escolhas.org/wp-content/uploads/2025/06/RelatorioTecnico_Canhamo.pdf?

Barreiras principais: vácuo/regulação incompleta, conflito entre órgãos (ANVISA vs MAPA), falta de sementes padronizadas e infraestrutura industrial (desfibramento, espadelagem (scutching). Uma decisão do Judiciário em 2024 teve impacto jurídico importante, mas o setor aguarda normatização abrangente. Fonte: https://www.embrapa.br/pdi-para-o-desenvolvimento-do-canhamo-no-brasil?

Figura 6: Mapa da aptidão agrícola brasileira para cultivo do Cânhamo. Fonte: [15].

O território brasileiro tem potencial para o desenvolvimento da cadeia produtiva do cânhamo [15]. A mudança na legislação poderia impulsionar a economia agrícola e gerar valor agregado no setor não alimentar, especialmente para pequenos agricultores.

Dada a diversidade de aplicação das fibras na produção de bioplásticos, biocombustíveis, materiais como tecidos, madeira, papel, embalagens biodegradáveis, materiais de construção, o potencial de utilização no mercado brasileiro é amplo, principalmente na deficiência de moradias para pessoas de baixa renda.

6) Onde o Brasil entra (ou deveria entrar) no cenário mundial do cânhamo

Figura 3 e 4 – Plantação e colheita do Cânhamo. Ref.: próprio autor – gerada por IA.

Figura 5 – Construção de parede com hempcrete. Ref.: próprio autor – gerada por IA.

[ 1 ] Por que o Brasil ainda não tem uma produção relevante de cânhamo?

O Brasil não está fora do círculo produtivo por incapacidade técnica ou agronômica. Está fora por um vácuo normativo deliberado, associado a fatores históricos, institucionais e culturais.

Reputo como fator central uma certa confusão regulatória e política.

  • O cânhamo industrial (Cannabis sativa L. com baixo teor de THC) é tratado, na prática, como droga ilícita, apesar de não possuir efeito psicoativo, ser amplamente regulamentado em países desenvolvidos e existirem diversos produtos comercializados, inclusive já importados pelo Brasil, como os tecidos.

Assim, a ausência de uma definição legal clara, estabelecimento de limite oficial permitido de THC para cânhamo e normas técnicas agrícolas e industriais, criam insegurança jurídica total para aqueles que desejam empreender neste mercado inexplorado no Brasil.

Como resultado, temos que nenhum produtor, investidor, banco ou empreendedor entra em um setor sem clareza na regra do jogo.

[ 2 ] Temores e receios institucionais que travam o avanço

Podemos admitir como nó político-regulatório:

1) Temor da abertura das porta

  • Receio (equivocado) de que regulamentar cânhamo irá fragilizar políticas de repressão às drogas e dificultar a fiscalização policial.

  • Ignora-se que países como França, Canadá e Alemanha regulam cânhamo sem qualquer impacto negativo no controle de entorpecentes.

2) Fragmentação institucional

  • Agricultura, Saúde, Justiça, Meio Ambiente e Indústria não falam a mesma língua, em uma análise mais contundente. Sendo mais cautelosos na análise, dizemos que interagem muito pouco na solução de alguns entraves.

  • Falta um marco transversal, como ocorreu com soja, etanol e biodiesel.

Portanto, com efeito, o receio de liberar o plantio para cânhamo não é meramente técnico, mas sim político e administrativo.

[ 3 ] Capacidade e potencial do negócio agropecuário brasileiro

Creio que estamos diante de um paradoxo: “O Brasil é uma potência agroindustrial global, mas está ausente de uma das culturas mais estratégicas do século XXI”.

Possuímos, conforme já sabido por todos os especialistas, que temos condições naturais ideais para desenvolver e liderar o plantio do cânhamo utilizando nosso território, pois clima favorável no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Solos adaptáveis. Experiência e tecnologias consolidadas em grãos, fibras, biomassa e uma forte cultura industrial.

Adquirimos, ao longo de décadas, infraestrutura específica e bem desenvolvida em:

  • Maquinário agrícola moderno e adaptável.

  • Logística de exportação.

  • Cooperativas e agroindústrias maduras.

  • Suporte técnico de pesquisa agropecuária.

  • Fornecimento de insumos de alto nível.

Nesse sentido, não nos falta capacidade, estrutura e tecnologia. Falta permissão ou desejo político para que esse setor floresça.

[ 4 ] Lacunas Normativas e Impactos na Estruturação da Cadeia Produtiva do Cânhamo

Sem normas, o mercado não nasce, pois a ausência delas impedem:

  • certificação e aprimoramento de sementes;

  • pesquisa e desenvolvimento das plantas;

  • padronização de fibras e hurds;

  • desenvolvimento dos ensaios químicos, mecânicos e térmicos (ex.: hempcrete);

  • aceitação por:

    • construtoras

    • empresas agrícolas

    • indústrias têxteis e madeireiras

    • seguradoras

    • bancos

    • órgãos de fomento

A inexistência de liberação normativa e de marcos regulatórios adequados compromete a segurança jurídica do setor, elemento essencial para a atração de investimentos privados e financiamentos institucionais. Em ambientes de elevada incerteza regulatória, o capital tende a migrar para setores com maior previsibilidade normativa.

A ausência de crédito, de investimentos estruturantes e de políticas de fomento inviabiliza a consolidação da produção e da cadeia produtiva. Assim, as lacunas regulatórias tornam-se fator determinante na limitação do desenvolvimento econômico, impactando diretamente a geração de empregos, a ampliação da renda, a abertura de novas empresas, a expansão logística, a competitividade internacional e a criação de novos mercados.

Experiências internacionais demonstram que a regulamentação clara e estável foi elemento decisivo para a consolidação do mercado de cânhamo em países como Canadá, Estados Unidos e membros da União Europeia.

[ 5 ] Potencial do mercado brasileiro (onde está o dinheiro)

Figura 6 – Fios e tecido obtidos a partir do cânhamo. Ref.: próprio autor – gerada por IA.

Construção civil (blocos, painéis, hempcrete)

  • Brasil é um dos maiores mercados de construção do mundo.

  • Existe no país, um déficit habitacional crônico.

  • Demanda crescente por materiais de baixo carbono, isolamento, térmico/acústico

  • Potencial imediato para blocos estruturais, vedação, reformas sustentáveis.

Substituição de madeira

  • Redução de pressão sobre florestas: aplicações em painéis, MDF ecológico e elementos arquitetônicos.

Têxteis e fibras técnica

  • Cadeia têxtil já instalada, forte apelo ESG e a possibilidade de: tecidos técnicos,

compósitos automotivos e geotêxteis.

Biomateriais e indústria

  • Bioplásticos, Isolantes, Papel técnico e Economia circular

ESG: Enviromental, Social and Governance. MDF: Medium Density Fiberboard.

[ 6 ] O elo crítico: normas inexistentes × potencial desperdiçado × riqueza não gerada